domingo, 15 de setembro de 2013

Araraquara, a Morada do Sol, da Lua e das Estrelas...um Céu Inteiro



   Araraquara vem do guarani 'Aracoara' e significa 'Morada do Sol'. Eu tenho um caso de amor com essa cidade. Trago nas retinas o postal da grande catedral de cúpula prateada insultando um céu inenarrável e nas narinas o prana da Cutrale espargindo cheiro de doce de laranja pelas ruas em finais de tarde.
   Fui seminarista da Congregação do Verbo Divino. Lá eu tive aula de Latim com um padre alemão que era um gênio, Ioachim Piepcke. Com 28 anos de idade ele falava 7 línguas. O primeiro exemplar de Grande Sertão: Veredas que vi na minha vida, àquela época ainda um mistério insondável para mim, foi em sua estante interessantíssima que dispunha ainda de Goethe, Drumond e uma grande Bíblia em... Hebraico! Foi um período de ouro. 
   Havia um jornal interno no qual eu colaborava semanalmente com minhas poesias da época. Nossa mãe era um negão que era o fino da bossa: Irmão Sávio Pires André. Um nego escolado, com um português impecável e quem me incentivou demais a escrever. Mas eu escrevia antes. Escrevi meu primeiro poema com oito anos. Chamava-se "Márcia", o nome de uma menina com quem eu brincava de bonecas e fazia as vozes de todas elas! 
   Houve uma época antes de ir para lá em que eu comecei a ir muito mal na escola. Notas aquém de péssimas. Mas o professor de Português lia minhas redações diante de toda classe que olhava desconfiada para aquele pobretão sentado no fundo da sala, entre envergonhado e orgulhoso. 
   Esse fato me deu depois muita confiabilidade para escrever. Não importava o quanto fosse incapaz para outras matérias, tinha certeza que sabia escrever bem. O processo que ocorre hoje quando crio algo escrito, àquela época já mostrava as garras. Uma das redações tinha como tema a Cidade de São Paulo. Lembro que me situei no tempo romanticamente pensando nas Entradas&Bandeiras explorando a selva através dos rios. No meio da história vi que  meu enredo era muito pobre e estendi então minha narrativa até o ano 2000. A redação terminava com lambretas voadoras e sabe lá Deus o quê mais nos céus da cidade. Treze anos passados da minha previsão e o que se vê voando hoje, fora aviões e helicópteros, são balas perdidas... Como profeta eu não teria futuro algum.
   Mas voltando ao Seminário, devo dizer que uma das grandes 'sacadas' deles era a de que nós estudávamos fora das instalações. Estudei em dois colégios em Araraquara, no Duque de Caxias e no Colégio Progresso, este, parte essencial na história da minha vida de artista e bandido.
   Em 1973, morreu o fundador do Colégio Duque de Caxias. Como éramos alunos e seminaristas, comparecemos em peso à missa de corpo presente e depois ao enterro, no grande cemitério da cidade onde tenho duas jóias preciosas com histórias totalmente distintas a sete túmulos de diferença uma da outra. Mas essa parte fica para uma outra ocasião.
   O Irmão Sávio, sempre inteirado na vida cultural do país, leitor assíduo de grandes jornais nos alertara que um dos filhos do falecido fundador era um diretor de teatro famoso na capital paulista. Até aí tudo bem...
   Na missa da Igreja Matriz, antes do féretro, percebi um grupo de pessoas meio doidas, parecendo hippies, ocupando os primeiros assentos da nave. Ao final da liturgia, o padre cedeu espaço à palavra de um dos filhos do fundador daquela instituição. E levanta-se o Senhor José Celso Martinez Correa, de colete branco, sem camisa por baixo e calcas de cetim roxas. Suas palavras chocaram os presentes. Ele disse que em algum lugar no além, ele e seu pai sempre estariam juntos. Chegaram a me dizer que aquilo era uma heresia. No cemitério percebi que ele usava tamancos brancos, combinando com seu colete, a prova de balas, no mínimo. Um séquito de malucos o acompanhava. 
   É mais ou menos dessa época a controvertida e venerada montagem do Zé para o texto de Oswald de Andrade "O Rei da Vela". Soube que quando o espetáculo terminou a temporada em São Paulo, Zé Celso e sua legião de maconheiros foram ao túmulo de Oswald, no Cemitério da Consolação para queimar os restos do cenário da peça. Eu sempre quis contar isso para ele mas aquele bicho é tão doido e tão falastrão que não teria ouvidos para escutar nada que não tratasse de seus heróis malditos. 
   Outro Araraquarense (biscoito fino, já esse!) é Inácio de Loyola. Cruzei uma vez com este no Riviera e pedi para dizer um poema para ele. É um dos meus "Poemas da Infâmia". Não está no blog e nunca estará. Ele ouviu e educadamente me pediu que deixasse uma cópia em seu nome na Livraria Cultura. Nunca o fiz. 
   Caio Fernando Abreu, a quem conheci e que me adorava, enlouqueceu quando li esse poema para ele. Ele quis usar a primeira estrofe como epígrafe de um livro que estava por lançar mas eu não permiti. Taqui o bicho:

Habeas Corpus

Veio um dragão
pousado em meu paraíso
trazer tolos enigmas
cifrados a ouro e prata.

Não pude perceber seu voo em brasas.
Meu delírio até então, era consequência de estar só.

Eu procurava, desta maneira frágil e rastejante
fórmulas fáceis para esquecer o medo
mas cada tremer de folhas me aterrorizava, e pronto! 

Eu copulava febril, o rastro dos vermes,
rabiscando paredes 
com o excremento dos seres miseráveis.

Não pude decifrar essa mensagem.
Nuvens colidiram o local e pássaros emudeceram.

Era agora!
Era o bote! 

Revi tudo em oito segundos
e a serpente me engoliu.

   Escrevi isso num só golpe. Num puteiro em Ribeirão Preto em 1984.
Nunca mudei uma vírgula. Nunca esqueci esse lixo. É bonito mas não vale nada.
O livro de Caio Fernando é um dos piores que ele escreveu: Os Dragões não conhecem o Paraíso.
Não acho que fiz mau negócio negando quatro versos brilhantes mas idiotas.
Caio Fernando teve uma crise de depressão após o lançamento de "Os Dragões". Uma vez ao telefone ele me disse que estava mal porque evocara no texto muitos amigos que já tinham partido. 
Caio escreveu textos belíssimos até pouco antes de morrer, em sua coluna semanal no Caderno 2 do Estadão.
Esses sim, dignos de uma coletânea! Mas escreveu outras coisas lindas também.
   Quando Clarice Lispector foi a Porto Alegre para uma conferência na Universidade onde Caio Fernando estudou, ele foi até o hotel onde ela estava hospedada para conversar a autora que, como muitos, venerava de paixão. Sentaram-se à mesa para um café e ele todo envergonhado - ainda não era o jovem brilhante que editou "Morangos Mofados"- olhava para Clarice que fumava compulsivamente sem dirigir-lhe uma palavra sequer. Depois de um longo tempo, ela fixou nele seus olhos de gato e num relance felino perguntou assim meio blasé, como quem não fizesse mesmo questão de nada: "- Qual é mesmo o nome dessa cidade?"
E fazia três dias que Clarice estava lá. 



A Clarividência Cega de Arthur Rimbaud


Arthur Rimbaud

Agosto 2013

Postei recentemente uma série chamada "Hinos ao Sol". Dediquei a Rimbaud, um dos meus amados anjos caídos. A suprema ousadia de Arthur Rimbaud em abandonar a poesia que escrevia melhor que ninguém... Moleque danado de bom, aquele! Só o essencial. O puramente essencial. Como Rimbaud dizia: 'a brevidade do essencial'.
Não gosto muito quando ele resolve rondar minha vida. Põe as coisas de cabeça para baixo, vira tudo do avesso. Tenho medo de Rimbaud, na verdade. Porque ele me intriga. Criou a poesia mais revolucionária para a época, foi o primeiro punk de verdade. Johnny Rotten e Syd Vicious perto dele foram Mickey Mouse.
Rebelde, diabólico, homossexual, gênio... Sua vida obscura na Abissínia traficando armas, café e sabe lá Deus o quê mais. Dos poetas profanos, ninguém que se compara a ele. 
Li praticamente tudo que me caiu nas mãos sobre Rimbaud. Mas sempre que ouço algo novo é um assombro, uma revelação! Rimbaud - Charlesville, Charlestown - O Eterno Retorno de Rimbaud. Veja isso no You-tube!
Alguns escritos que acharam dele muitos anos depois que ele morrera têm, por exemplo, "A Caçada Espiritual" como título.
Como pôde um demônio daqueles escrever uma poesia em prosa chamada "Iluminações"?
O fato é que comecei a compor os "Hinos ao Sol", que desde o começo surgiram sem pedir licença. Fui trabalhando aos poucos, burilando, entendendo, até que ontem finalmente percebi que tinham adquirido forma estabelecida. E o retorno de Rimbaud aconteceu desta vez nem sei bem por quê. 
Afinal, vi nesse documentário que uma das obsessões de Rimbaud era o sol. Mesmo depois de ter sua perna amputada em Marseille ele queria voltar para a Abissínia porque achava que o sol iria curá-lo. 
Assim ele tem assombrado a claridade dos meus dias. Penso nele, ouço músicas que me remetem ao ser dele... Rimbaud! A gente só compreende o que nos intriga pouco a pouco. Tal como nós, abrindo nossa caixa de surpresas, um pouco mais benéfica que a de Pandora, descobrindo enlaces, coincidências, mapas que já se cruzaram noutras geografias aquém. 
A arte é um dos poucos resgates mecânicos. E ainda assim também ela não nos leva a lugar algum muitas vezes.

A vida em si é algo ordinário, não interessa se você é Jean Paul Sartre ou o Bandido da Luz Vermelha. O sufoco de existir é duro de engolir sem mastigar. É nossa responsabilidade levantar alicerces e muros para depois quebrar algumas partes e abrir algumas portas, janelas... À frente sempre haverá uma nova paisagem. 
Quando não houver, buscaremos tintas para pintar uma nova maneira de amanhecer outra vez, indefinidamente, solertes homens.



Provavelmente essa foto tenha sido tirada por Rimbaud em Harar, Abissínia. É um escrivão. É lamentável que quase não haja fotos dele quando adulto. Descobriu-se recentemente algumas fotos que pesquisadores acreditam seja ele.





sábado, 14 de setembro de 2013

Verbos Hebraicos e Ciprestes Obeliscos


Você deve estar neste momento entrando na fase nevrálgica das segundas-feiras. São quase onze da manhã no Ipê Amarelo. 
Voltei hoje da Ulpan pela Floresta de Jerusalém. Pra tirar essas fotos. O cheiro seco dos ciprestes sempre lembra meu irmão. 
Esse aroma está impregnado nas minhas lembranças mais remotas, assim como cheiro de creolina. Você sabe bem do que estou falando...
Mas fazer esse caminho só, me faz voltar no tempo e entendê-lo com uma compreensão que me escapa à razão. 
A Ulpan tem sido uma revolução em minha psique. Começo a assistir minha paixão aumentando pelas letras, pelas palavras, pelos verbos...
E o pior é que também parece que assim como eu eles se apaixonam por mim. Estou começando a sonhar com verbos em hebraico...
São sonhos de amor. Isso movimenta algo em mim que não sei para onde vai nem de onde vem, Léo.
Todo o pânico que sinto quando as professoras me perguntam coisas em que tenho que pensar rapidamente e responder usando presente, infinitivo e formas verbais para os gêneros masculino/ feminino... Meu medo de não saber (e eu sempre sei, é incrível como eu mesmo não dimensiono o aluno aplicado que sou, como muito de mim ainda não acredita nisso) que me paralisa e me confronta com o desconhecido. Tem valido uma terapia. Hoje vi o moleque desengonçado que fui com vergonha das mangas já curtas aquém da minha aceleração de crescimento e com inveja das outras crianças que tinham mãe e roupas sempre novas e impecáveis. Talvez tudo o que aquela criança sofreu um dia seja justamente o que hoje me faz estar aqui escrevendo minha poesia e esperando pelo retiro de novembro de coração tão aberto... de me dar por satisfeito em poder pintar minhas raras aquarelas que são um prazer pessoal e convívio com o belo, um exercício para o Rei de Espadas. Toda a cratera que o destino cavou em minha vida foi preenchida com um combustível que só os deuses podem fornecer... Isso aos poucos começa a explodir suavemente em forma de canção. Incinerando junto com a música as barras da minha jaula, liberando os pets que um dia foram bestas enfurecidas. 
Todos pagaram para eu ser feliz. Meu pai que morreu triste e desesperançado, meu irmão louco terminando sua vida insana num hospício, minha mãe que agonizou dois anos tomando morfina sem me ouvir chamá-la... essa palavra não aprendi a conjugar! Paguei também com incontáveis adeuses... Talvez a gente só seja realmente feliz pelo que se é capaz de pagar antecipadamente. "Viver é mesmo muito perigoso", como meu amado Guimarães Rosa tanto repetiu... Graças a Deus aprendi a ginga dos negros.
Repare as fotos. Veja o detalhe dessas pequenas muralhas que foram construídas pelos árabes para evitar o deslize do vale. Ainda vou descobrir isso mais a fundo. Eles deviam usar esse vale para plantar alguma coisa. É o mesmo tipo de aproveitamento de terreno em declive que os incas praticavam. Há uma foto que mostra isso em detalhe. Os pedreiros árabes ainda são mestres nisso. Constroem muros de pedra sem necessidade alguma de cimento. O muro do fundo do meu jardim é construído assim. As pedras se encaixam como um puzzle resolvido. Esse caminho da floresta é coalhado de seixos, pois toda a água da estação de chuvas desce por ali. 
Aos poucos o outono começa seu presságio. As noites são mais frescas e o sol já não pune seu castigo de luz tão impiedosamente. 
Filho, fique com todos os adeuses, todos os presentes, passados e futuros semíticos ou não. O tempo vibra e não há faróis em alto mar. Deus é pura velocidade. Ele só existe mesmo quando vivido. Por isso a vida não compartilhada como uma liturgia é um erro, um pecado (termo originado do latim peccare, significa literalmente perder o pé, tropeçar. Ouspensky disse uma vez que a palavra pecado significava perder o caminho ou perder a meta). A única meta possível é o caminho de volta para a Luz, de onde todos viemos, para onde nossas almas emergirão algum dia. Todo Amor. Um beijo na Isadora. Cuidem bem de vocês minhas amadas crianças. Seu no Dharma. C.

PS: Acabo de falar com a Mihal a respeito dos muros da floresta. Eles são centenários. Foram usados há muito tempo como terraços de cultivo. Já não se sabe do quê.
Mas estão lá, esperando você e a Isa, atravessando estações, tempo aparente e dimensões desconhecidas. Jerusalém...




Romãs


Romãs...


 13.09.13
Todas as sextas-feiras tenho um trabalho numa casa alta que tem uma vista belíssima de uma das partes do grande Vale Iemenita de Ein Karem.
Num pequeno intervalo entre um cozido e um assado, fui até a larga varanda de madeira para apreciar os morros ao longe e invariavelmente meu olhar se deteve numa romãzeira carregada de frutos, logo abaixo na colina.
É muito interessante quando uma árvore tem frutas vermelhas. Com o verde das folhas, o carmim dos frutos salta aos nossos olhos. Verde e vermelho são duas cores complementares que devem ser usadas com parcimônia e sabedoria numa pintura. Senão sujam-se uma à outra. Veja alguma coisa em laranja e azul, outras duas cores complementares, repare como há um efeito estroboscópico que surge delas. Os tapeceiros são sábios no uso dessas cores. 
Foi Van Gogh o primeiro a explorar escandalosamente esse recurso. Sempre meu amado Vincent... Mas mire-veja como Van Gogh brinca com os verdes e vermelhos, com laranjas e azuis e violáceos e amarelos. Demônio ruivo que ele foi com pretensões de anjo caído. Criou em seu conflito violento-violáceo, telas que funcionam como um berço de aconchego onde você quer irremediavelmente viver dentro. Amado Vincent... Talvez ele também quisesse se transformar numa de suas pinturas. Não se poupou nem de orelha cortada para se meter num auto-retrato abusadamente isento de autocrítica. Carimbado no canvas.
E claro, olhando as romãs lembrei de você e da sua questão sobre elas. 
Vi ontem pela manhã, flores azuis celim brotando do chão, numa fresta casual por entre as pedras da rua. Quanto as flores podem ser sutis em meio às pedras, como elas sabem por onde surgir, por onde chegar à sua superfície de expressão para contar sobre um jogo puro de cor e coragem.
Sempre admirei essa natureza  do Oriente Médio, mas agora ela divide seu cotidiano comigo. É diverso. Há um diálogo. Cumplicidade. Assim como os flamejantes flamboyants nas praças mornas de Araraquara. Uma linguagem entre árvores e homens. Dois seres humanos não podem chegar a conclusão alguma sobre isso. Mas você, Diadorim, e as árvores, sabem muito bem do que falam entre si, do que sentem, de quê se calam, qual mistério compartilham dia após dia, por que porquês respondem-se em silêncios de respostas...
Romãs queimando vermelhos de insistência, incêndios de fertilidade, condenação de perséfones e prosérpinas, lenda de tudo! (Você está vendo muito bem [arrepare! arrepare!] que as palavras não me autuam, libertam-me outrossim, vítima já redenta desse júri semântico de sentidos despudorados que vão arrancando toda minha roupa, mudando toda minha indumentária inicial para me deixar nu em pelo diante da platéia assombrada, striptease verbal sem qualquer controle.
E tudo porque eu quis falar inocentemente de anônimas romãs durante uma visão quase ingênua... que destino insólito o de fazer amor com as palavras... elas me fazem gozar sem usar a língua...
Mas falando em Verbo... Quando o Sr. Verbo, o bigodudo aquele que orientou Moisés deserto afora, deu a letra de como Ele queria que se construíssem a Arca da Aliança, o altar, o castiçal e o manto sacerdotal, e que nesse caso seria de Aarão, para este manto Deus pediu que se bordassem na bainha, romãs intercaladas por pequenos sinos, para que o tilintar destes, quando o oficiante adentrasse o templo, fizesse soar um lembrete de vida, bem como à sua saída. (Êxodo - 28-31,35)
Há onze passagens no Antigo Testamento em referência a essa fruta. Nos Evangelhos, não existe de todo. Nada a respeito. Ela está conectada à fertilidade também, pela sua profusão exacerbada de sementes. Salomão fala dela de forma bem erótica no Cântico dos Cânticos, para mim um dos livros mais esotéricos e libertadores do Antigo Testamento. A analogia entre o Amado e a Amada seria usada abertamente pelos grandes poetas sufis como Jalaluddin Rumi e Hafiz. Você gosta de Rumi, Diadorim? Sabe que Rumi é o poeta mais lido na América hoje? 
Para os semitas a romã é um dos sete pilares (Shivata Minim) da cultura da terra: Oliveira, Mel, Uva, Figo, Romã, Trigo e Cevada. Em todo o Oriente Médio você toma suco de romã feito na hora em plena rua. O suco é maravilhoso! Quase preto! Magenta, pra ser mais exato, a mãe do vermelho! É meio 'sour', ácido e salgado, o que pronuncia seu sabor adocicado no palato.
Elas são também um símbolo de Abundância, Sabedoria e Bênção. No Ano novo Judaico, um dos mandamentos à mesa pede que se comam sementes de romã, assim como maçãs embebidas em mel. É lindo. Elas crescem por todos os lados. No Egito são ainda mais suculentas e tem um sumo mais escuro. São densas, alcançam os tabuleiros em carmim nos mercados como se explodissem exuberância de beijos não dados.
Há um extrato de romãs, que uso juntamente com ervas e especiarias para temperar e assar frangos que derretem na sua boca. Esse extrato também pega bem em carne de porco, que particularmente não como, mas sei fazer bem. Uso junto com anis estrelado, pimenta jamaica e zimbro em lombo suíno. Há no Brasil uma  ou mais marcas de produtos árabes, se não estou equivocado. Eles têm produtos interessantíssimos que você encontra em alguns Supermercados. Você pode achar água de flor de laranjeira, xarope de  romã e água de rosas, bem como tahine, zátar e alguns enlatados. Esse xarope faz um molho legal para saladas. Aqui você usa 1 Colher de Sopa dele, 1Colher de chá de mostarda em pó, sal, açúcar ou mel, limão, shoyo, algumas gotas de óleo de gergelim e azeite. Mas tudo isso é bruxaria do velho. Segredo nosso.
 Bem, claro que tenho que ilustrar este e-mail com algumas aquarelas. Enviei uma não terminada e que assim ainda está. Mas há uma menor que talvez você não tenha visto. Tirei algumas fotos de aquarelas que estão nas minhas paredes e em pastas. Mas há junto um grafite de um carvalho que eu amo. Ele ficava num campo de mostarda há vinte minutos de bike da colina em que morava em Oregon House, CA. Costumava ir até lá algumas tardes ler Walt Whitman para ele. Principalmente...:
"I saw in Louisiana a live-oak growing,
All alone stood it, and the moss hung down from the branches;
Without any companion it grew there, uttering joyous leaves of dark green,
And its look, rude, unbending, lusty, made me think of myself;
But I wonder'd how it could utter joyous leaves, standing alone there, without its friend, its lover near - for I knew I could not;"
...Por algum motivo especial jamais cheguei perto desse grande carvalho. Estar diante dele era ter a visão de uma sarça ardente antes da combustão para Moisés. Vê-lo de longe era ter a dimensão de sua solidão perdida na imensidão daquele campo e que no verão forrava-se num tapete amarelo de flores de mostarda onde meu carvalho era um imperador solitário, nobre, quase sagrado...
Ainda choro de saudades dele quando leio esse poema do velho Walt. Os anos se passaram e suas raízes poderosas ainda crescem no meu peito...
Mas tudo o que conversei com ele, um ser humano jamais entenderia... nem eu mesmo poderia repetir... e talvez quando leia o poema de Walt Whitman falando do carvalho solitário na Louisiana, seja na verdade a voz daquela velha árvore quem conversa comigo, que chora e encosta sua ramagem no meu ombro me dizendo que fui seu único amigo, seu único escudeiro, seu companheiro fiel das tardes inesquecíveis que passamos na empoeirada Rice's Crossing Texas Road, em Oregon House, CA.

Todo meu Amor. Com lágrimas nos olhos e o coração apertado de saudades da minha árvore solitária... Seu no Dharma. C.


Onde o sol bate e se firma









Pérolas...que se encontra ao longo da vida... São raras. Tantas e tantas histórias incontadas! Amanheceres construídos com as próprias mãos... Tintas que ninguém previu. Tive todo meu dia tomado pelo e-mail que você mandou!
Só o que posso te dizer é que me fortalece, como talvez já tenha dito antes. O fato de ler sua mensagem logo cedo, 5:30 da manhã foi um presente dos mais lindos.
Quarta é um dia em que tenho um trabalho que faço em Jerusalém. Acordo cedo para ter tempo hábil de começar meu dia numa nota alta. Uma meditação longa de 30 minutos. Ao longo do dia faço mais algumas pequenas sessões. É parte da prática. E o dia todo uma prática também. Não faria sentido se não o fosse!
Passei quatro horas sozinho fazendo minhas comidas com o sentimento totalmente voltado em Araraquara.
Você menciona que não conhece Israel! Pois agora há mais de mil motivos para vir e conhecer! A gente precisa planejar isso bem para aproveitar o máximo.
Não tem muito tempo que cheguei aqui. As coisas foram se desenhando de uma forma mágica. Como a casa em que moramos agora e que foi um achado, por exemplo. Chegamos em Abril, 19 Dia do Índio, para procurar residência e tínhamos metade daquele mês mais maio inteiro para encontrar um lugar que fosse conveniente. Ficamos então num pequeno apartamento numa vila de casas próximo daqui. Na primeira ligação que fizemos ao ver lugares para alugar em Jerusalém e Ein Karem, encontramos essa. Bárbara. Uma casa árabe. Provavelmente construída antes de 1948. Longa, retangular, com o teto da sala abobadado e as paredes da cozinha em pedra. Estou mandando umas fotos para você ver.
Há outra casa em cima da nossa. Nela mora Mihal Ben Gal, viúva de Yussef Ben Gal, um poeta que agitou a vida cultural daqui nos anos 60 e 70 até se deparar com o trabalho de Gurdjieff e as ideias do Sufismo. Ele manteve onde hoje moramos, grupos de estudo sobre essas 'filosofias'. Mihal nasceu num kibutz ao norte de Israel em 1942. Seus avós vieram para cá no que eles chamam o segundo 'aliá', o começo da imigração judaica para a Palestina de então. Esses judeus da época começaram a viver em comunidades, em lugares pouco explorados e condições precárias. Os judeus que vêm dos 'kibutzim' têm uma forma de viver e pensar completamente distinta. Há algo diferente no comportamento deles. A vida em comunidade cria algo muito legítimo, assim como o fato de as mulheres servirem exército por dois anos e os homens três influi muito no sentimento de nacionalidade. Isso é tanto inteligente quanto necessário na cultura israelense. Mas esse é um assunto muito longo! Mihal é maravilhosa. Uma mulher de 71 anos ligadíssima. Trabalhou na chefia do setor de Arqueologia da Fundação Rockefeller por mais de trinta anos. Ela participou também de muitos projetos externos em escavações. Tanta história tem para contar! O mais lindo é que ela editou um livro póstumo com as poesias de Yussef. Ele tinha cinco livros publicados em vida. São poesias espirituais, de uma luta contra Deus. Ao final ele amansou. Fez as pazes com o Velho. São esses poemas que Mihal compilou e publicou. Só ela sabe o doze que cortou com ele. Eles tiveram um filho, Asaf. Ele morou aqui nesta casa com Karem,sua linda esposa e seu filho, Ilay, um menino cujo semblante me lembra muito a criança que fui um dia. Mas eu vejo nele muito da expressão de seu avô. Yussef Ben Gal lembrava um pouco Ernest Hemingway. Mihal concorda. Teria  com certeza gostado muito de Yussef se o tivesse conhecido.
Dou-me muito bem com ela, apesar do pouco tempo que temos como vizinhos. Conversamos muito. Ás vezes jantamos no nosso jardim. Ela gosta muito da minha comida. Como você vê, há um material imenso aqui para conhecer. Mihal é um grande e imprescindível detalhe. Não sei realmente por onde começar a contar tudo. 
Nós temos também um apartamento em Herzilyia, perto de Tel-Aviv. Está alugado, já que até então morávamos no Brasil. Mas não temos planos de nos mudar para lá. O contrato de nossa locatária vence agora em dezembro. Nossa vida parece realmente se encaixar aqui. Estou farto de cidade! Vejo que minha mentalidade cosmopolita me faz sentir um estranho dentro do terno do dia a dia muitas vezes, como se o defunto fosse maior. O fato é que o palhaço era meu tio. Ele me ensinou a construir o picadeiro, vender pipocas e depois dispor as cadeiras e fazer o show, como escrevi certa vez num velho poema.

Tenho receio de elaborar um tratado e esbarrar em seu enigma de esfinge, em seu silencio de tantos anos... Para mim é a maior referência, o grande arquétipo de iluminação, o maior exemplo de como um grande trabalho pode ser efetuado sem ruídos. O que sou hoje, esse resultado desconhecido mas constante, não ocupado com o improvável, esse pequeno sol de alma que criei, tudo isso devo à pedra de toque que foi e é para mim. Todos os reencontros foram para mim eventos marcantes. Sinceramente, não sei se está ao meu alcance esse merecimento. 
Mas só o fato de poder falar isso tudo com você, de poder compartilhar este momento, para mim é como estar eternamente de férias. Uma bênção que reflete faíscas aos coriscos.
A Mahamudra é um artigo para uma nova correspondência! Eu gostaria realmente de falar de forma intencional a respeito.
Copiei uma foto de Dan Brown em 'minhas imagens' pensando em mandar-lhe. Segue nesta. Foi tirada no primeiro retiro que fiz com ele em 2011. Quando estava batendo essa foto ele me disse: "Pense em Dharmakaya".
Achei maravilhoso você estar praticando Yoga com esse envolvimento. Você seria uma instrutora muito interessante, para dizer o mínimo.
Por que não? Mas tome seu tempo. No entanto, considere. Eu mesmo gostaria de ter uma professora como você. Faria minha cabeça!
Grande Amiga, fique com todo meu Amor. Escreva. Me conte coisas. Obrigado por essa luz. Todos precisamos. Ainda bem termos uns aos outros. Seu no Dharma. Sempre. C.