quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Cavalinho Azul do Luna Park



O Cavalinho Azul do Luna Park

a MLML

O parque instalara-se naquele canto da praia havia muitos anos. Talvez por gerações estivesse ali. Não se sabia ao certo. Havia muitos rumores sobre o Luna Park. Mas ele sempre nos pareceu fantástico.
Por causa da maresia os brinquedos foram sendo substituídos ao longo do tempo por outros mais modernos. Mas eram basicamente alguns carrosséis, a roda gigante, os carros que trombavam e o grande chapéu mexicano. Havia também barracas de jogos de argolas, incontáveis maçãs do amor revelando groselhas, pipocas coloridas e amendoins na brasa que as negras caiçaras sabiam preparar como ninguém.
Era um parque comum que atendeu a milhares de crianças maravilhadas. Eu não me lembro de ter estado sequer uma única vez em qualquer um daqueles brinquedos. Mas recordo meu deslumbramento só de passar perto do Luna Park. Entrar nele então, era como adentrar um mundo de luzes em movimento, rodopiar sonhos coloridos que ainda não sonhara.
Contaram essa estória muito depois. O caso é que os cavalinhos do carrossel foram feitos pelo velho homem responsável pelo parque. Lembro-me bem dele. Uma figura esguia e branca vagando pelas ruelas a tilintar um colete cheio de chaves preciosas. Para mim elas tinham o acesso a todos os brinquedos, assim imaginava. E seu nome, tão estranho, Mestre Venâncio, ecoando em seu universo giratório por todos os lados, era uma senha incansável, pois havia sempre alguém a chamá-lo, alguém sempre murmurando seu nome pelas aleias daquele mundo de luzes em movimento. Parecia que a muito custo exercia seu papel central de dono da fantasia. Mas a impressão mais sutil é que, na verdade, ele apenas se resignava. Era de todos o que mais fazia de conta. Eu pensava que ele era feliz porque vivia nesse limite do sonho e do dia a dia. Mas não. Ele já vencera os prazos de ser feliz.
Mestre Venâncio era um homem só. Mas nem sempre foi assim. Tivera família numerosa e criara seus filhos ali, dentro do parque.
Porém eles se foram, atrás de outros brinquedos, de outros sonhos, de outras vidas. A mulher que docemente o acompanhara ao longo de muitos anos, um dia também se foi, para o grande carrossel do universo de não sei onde, buscar encantamentos nas estrelas de outros parques, onde todos os dias os anjos dizem amém.
E assim o Luna Park resistiu persistentemente. Nem o tempo nem a maresia são capazes de enferrujar os sonhos. E num momento assim ele começou a esculpir os cavalinhos. Lembrança giratória como um álbum de família. Um para cada filho, e o branco sendo Aracy, nome esquecido de sua amada.
Cavalinhos com nomes parecendo uma vida. Preto, Brincante, Cedo, Piloto, Aracy e Vermelho. Mas Mestre Venâncio esculpira os animais para serem alados, por liberdade intuída, acordo entre um homem e as estrelas à guisa de constelação. Em cada um deles dispusera um par de asas. E não se montava aqueles animais. Não se destinavam a condução infantil ou motivo de brinquedo. Mas giravam o tempo todo, mesmo quando os outros brinquedos estavam parados, para fazer lembrar que o destino conduz tudo a passos largos e espera sempre pela próxima valsa como o mais paciente dos partners. E era ali que ele passava a maior parte do tempo. Um lugar de segredos...
Mestre Venâncio sentado diante do carrossel em movimento... Girando em seus dedos nodosos um dos molhos que os bolsos de seu colete engoliam em segredo de sete chaves. Kombolói grego de país algum. O cabelo já todo branco, a perna direita que vez por outra falhava escorando a bengala nova. E o carrossel em movimento contando em arquétipos de felicidade, sua vida ali quase que por inteiro. Eram assim suas noites até que tudo se apagasse e a vida vazia mostrasse o profundo de seu oco insubstancial. Só as estrelas por companhia. Era difícil dormir. O parque rodopiava suas luzes ainda no escuro de seu velho trailer. Mestre Venâncio no escuro e a eternidade se abrindo. Os olhos fechados vendo luzes recorrendo mandalas insones. Sorrisos dentro das trevas transcendendo túneis...
Foi por volta de não sei quando, ele iniciou do nada um estranho hábito noturno. Dizem que isso sempre acontecera, mas não acredito. Acho que ele planejou tudo, mesmo porque, Mestre Venâncio não era assim uma espécie de deus de não sei quê? Ele podia tudo. Não era mesmo o dono senhor dos brinquedos todos? A um toque seu, todos os brinquedos funcionariam! Sua magia dispensava fórmulas de abracadabras.
E numa noite tudo começou! Entrados novembros e mesmo sendo um sábado, o parque fechou mais cedo. O carrossel, entretanto, continuou girando suas mil e uma noites de todos os dias.
Mas Mestre Cedo Venâncio não foi para a cama.
Aboletou-se no seu banco baixo e começou a entalhar um pedaço de boa madeira olhando os cavalinhos enquanto murmurava uma canção ao deus-dará, olhando sua vida inteira sem olhar para ela...
E foi assim. Canivete que te quero, não há tempo rima ou medida que façam a eternidade ser interrompida. Não é preciso viver dentro da gaiola quando a porta está aberta. Como se soubesse de tudo isso e muitas outras coisas mais insuspeitáveis ainda, o velho Mestre Venâncio descansava o azul longe de seus olhos ciganos em cada um de seus pégasos. E levemente eles agitavam por encanto de condão imediato suas asas de madeira até que elas adquirissem as penas leves de uma gaivota. E depois voavam. Para apenas se confundirem no céu e não serem mais nada. E de encantamento em encantamento, um por um, os cavalinhos se foram. Lendas de outras épocas que se desvaneceram depois da Ponte Pênsil.
Foram ser personagens de outros carrosséis ao longo do grande universo. O último deles, Cedo, o azul, levou consigo aquele homem mágico até que os dois se fundiram numa nuvem que passava casualmente sobre o mar noturno
E o parque todo, na manhã seguinte, também desaparecera para sempre, envolto em brumas, tendo como únicas testemunhas, as ondas, que até hoje contam esse segredo umas às outras enquanto o vento continua ainda cantando aos marujos aquela música em sopranos.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maria do Carmo Rodrigues

Arlequinadas


Meu pai costumava jogar cartas ali todos os sábados. Eram velhos primos afastados cuja árvore genealógica nunca pude compreender muito bem. Ele adquiriu esse hábito quando minha tia ainda morava conosco. Talvez para dar mais liberdade a ela, comprometida agora na meia idade com um partido de ouro que viria a ser um dos seus maiores infernos, Manuel Teixeira inventara-se no gosto de não estar em casa nestes dias.
Era um dos seus pequenos prazeres, se é que ele os tinha. Jamais entendi as regras daquele carteado típico de Madeirenses, a tal da bisca. Mas ao que tudo indica, e com o tempo da neblina dissipada, outras ordens estavam sendo já dispostas num mapa bem acima de nossas cabeças, com cartas previamente marcadas a ferro e fogo e sem ganhadores ao final, diga-se de passagem. Todos, sem exceção, perdemos!
Titia, aos cinquenta e dois anos de idade casou-se afinal, indo viver num bairro bem próximo ao nosso. Aos onze anos comecei a pilotar o fogão de nossa casa. E a pegar gosto pela coisa. Com um menu espartano nossa vida era então regida a arroz branco, feijão e sopas...ecléticas! E batatas cozidas também, isso quando São Benedito, o patrono da cozinha, não me trazia inspiração suficiente e eu constatava entre faminto e desapontado, os tubérculos esquecidos na cesta das cebolas. Amassávamos num prato fundo e comíamos com azeite e sal. Nenhum purê incrementadíssimo que faria como Chef no futuro poderia se comparar àquela nossa refeição frugal e feliz. Meu pai comia calado. Ele não era pessoa de bons garfos. Alimentava-se apenas para sobreviver, sem a mínima fascinação.
O ato de comer sempre fora uma graça que conhecera às duras custas no seu tempo de infância e juventude na Ilha da Madeira, onde toda sua família estava. Único brasileiro, fui alguém que jamais conseguiram colonizar de modo eficiente sem que ironia e sarcasmo se implantassem e eu começasse em seguida a imitar o forte e arrastado sotaque lusitano dos Madeirenses. Cruzes, Abernúncio!
Eu fora criado por nordestinos até os quatro anos de idade. O suficiente para preencher minha ampulheta com farinha de mandioca comida aos bolos misturada ao feijão, e com as mãos, de preferência! Em Exu, no Pernambuco, essa matula era chamada capitão. Uma avó negra, cuja casa recendia a curau de milho verde, cercada de gatos por todos os lados, era uma ilha segura de alfazema à guisa de colo onde eu bebia toda a senzala de seus cantos congos para me fazer dormir. Essa quebrada de preto, ninguém foi capaz de me tirar. Meu avô Jerniel, caboclo índio avermelhado, via minhas reinações atrás dos felinos o tempo todo com seus olhos de sabre e me dizia: Celso Gato! Era outro mote, que terminava sempre comigo respondendo em certo ponto: Eu não sou gato, não tenho rabo! - levantando a parte de trás da camisa para que, rindo, ele me agarrasse em mãos enormes tentando me convencer do contrário com uma salva de cócegas para meus gritos e guinchos em lugares indevidos!
Criei outros rabos quando uma Carta de Chamada trouxe de Portugal até ao Porto de Santos, num dia de calor, uma severa senhora suada que me beijou para meu desconforto aos cinco anos de idade. Ali selara-se nossa relação. Uma ladainha de orações num acento canhestro tomadas ao pé da cama todas as noites só faria crescer em mim a certeza de que, embora os fatos quisessem enfaticamente confirmar, eu nunca pertenceria de todo à Casa Grande. Minha ginga já estava toda armada na mandinga da Senzala. Portanto, de branco ou de português, cedo aprendi, celso gato não tinha nada!


Comecei a frequentar aquele cortiço com meu pai todos os sábados. Quando chegamos, no primeiro dia, ele me pediu que sentasse num degrau da cozinha e por uns dez minutos olhei desinteressado aquela cena muda sem qualquer sentido. Jogavam aos pares e entreolhavam-se desconfiados como se um crime hediondo estivesse subitamente por acontecer.
Minha redenção surgiu rápida na figura de um menino que se recostou à porta e me convidou para brincar. Aos onze anos, brincar para mim já era coisa do passado. Minhas bonecas tinham crescido o suficiente para precisarem dos meus cuidados. Mas aliviado pela chance única, consenti satisfeito e fui.
Ele me levou até a próxima casa, um cômodo e cozinha que seria por alguns anos o meu palácio dourado. Na grande cama de casal, uma menina diferente assistia TV. Pedro apresentou-me a ela: Essa é a minha irmã, Maria.
Duas pequenas bacias de plástico estavam a seu lado repletas de um amontoado colorido parecendo confeitos de bolo. Quê isso? - perguntei curioso.
- É florzinha! Não tá pronto ainda! É pruma dona que vem amanhã aqui buscar; falta ainda pôr nos buquezinhos! Toda semana ela vem. É serviço que eu faço pra fora! Não tá pronto ainda! - insistiu, guardando com mãozinhas pequenas seu precioso trabalho.
Tentou pacientemente explicar-me como as pilhas de pétalas eram desfolhadas, depois colocadas em pistilos de arame cobertos com papel de seda verde passado em cola e um pedaço de lã amarela numa das pontas, dobrada e torcida, se descabelava depois numa corola pronta para a próxima primavera. E houve muitas... Mas não entendi mesmo assim.
Ela era tímida. Estava vestida num pijama curto que deixava à mostra as pernas morenas de sol. Não pude deixar de notar seus pulsos desproporcionalmente fortes para sua idade e cuja formação me causou estranheza. Tínhamos a mesma idade, fiquei sabendo a seguir. Seu fio metálico de voz tinha o tom agudo e débil de uma criança de cinco anos. Os cabelos extremamente curtos não ocultavam seu rosto irregular. Seu tamanho também era inferior ao esperado para sua idade. As solas de seus pés minúsculos eram fantásticas, lisas como as de um bebê recém-nascido. Descobri a razão quando Encarnação, sua mãe, foi chamada por Pedro, num certo momento, para levá-la ao banheiro. Meu monstrinho adorável era paralítica.
Tia Encarnação recolheu depois as florzinhas de pano que Maria fizera, colocou numa caixa maior e apressou-se para o carteado na casa dos sogros ao lado, sorrindo brejeira ao sair e perguntar se eu queria um pedaço de bolo... Claro que eu queria!
- Você já jantou? Não? Ô Pedro, esquenta um pouco de minestra pra esse menino e depois cê dá o bolo de fubá pra ele comer de sobremesa. Saiu correndo, acatando os brados dos parceiros de mesa!
Minestra era uma mistura de arroz e feijão com água fervendo e sal que se transformava numa sopa, acrescida no prato de algumas gotas de limão. Era a comida que os trabalhadores da cana-de-açúcar faziam ao chegar em casa após a lida, aprendi.
Sertaneja de Araraquara, Tia Encarnação, ex boia-fria de engenho de cana, mantinha vivos os costumes da gente do sítio. Sua casa pequena era um espelho de limpeza. Tudo em ordem, simplicidade e asseio, como só as caboclas do interior têm o primor e a ciência de manter. A cozinha tinha o colorido aroma das muitas frutas que trazia da feira com suas próprias economias de lavadeira. Não me lembro de ter ouvido dela uma única reclamação que fosse, seja com seu destino ou com o fardo que ela heroicamente suportou em resignação e silencio por quarenta anos.
Minha amizade com Maria durou sua vida inteira. Aprendi com ela o ofício das florzinhas e sua produção logo tornou-se uma das melhores. Juntos nós trabalhávamos bem. Ríamos muito de tudo e todos. Fiz para suas bonecas coleções intermináveis que atravessaram estações. Ela tinha por mim um apreço que não demonstrava com outras pessoas. Tentei ensiná-la a ler mas não obtive sucesso algum. Nunca fomos além da primeira letra do alfabeto. No segundo dia de aula, seu espírito selvagem e débil arremessou os cadernos longe: - Eu não quero mais saber dessa merda!
Longe também foram nossos trabalhos infantis. Houve um tempo de uma pequena confecção do bairro nos entregar remessas de calças para que pregássemos botões. Tia Encarnação era quem fazia as barras. As bonecas ficaram nuas desde então.
Três dias na semana passávamos nossas tardes ocupados com linhas e agulhas. A hora de voltar para casa era sempre um transtorno. Ela fazia questão de me acompanhar até o portão. Subia a longa escada em marcha a ré sentada no chão, locomovendo-se como podia. Os fundos das calças sempre remendados e os punhos com o decorrer dos anos criando uma calcificação completamente atípica e grotesca. Meu pequeno monstrinho, anjo terrível acenando no mínimo três adeuses e um beijinho atirado no final.
Eu tinha me transformado num péssimo aluno e ótimo amigo. Para consternação de todos, minhas únicas notas “Excelentes” - conceito adotado no ensino de então - eram Francês e Português, as quais também não estudava de todo.
Por conta disso, meu pai, português, cansado e viúvo até sua última raspa de alma, resolveu que eu deveria estudar num colégio interno. Os conhecidos eram caros demais para seu salário de pedreiro. Por fim, não se sabe de onde, surgiu uma remota possibilidade de estudar num seminário no interior de São Paulo... em Araraquara, terra dos primos que Maria tanto adorava e onde passava algum tempo na casa das tias uma vez por ano. Mas nem isso pôde consolar sua inválida tristeza.
Assim, numa noite chuvosa de sábado, fui pela última vez à casa de Maria. Nossa minestra daquela noite ganhou um tempero extra à base de limão-cravo e lágrimas sentidas. Lancei-lhe à mesa uma última injúria de criança: - Viu, se você tivesse aprendido a ler, agora a gente podia escrever cartas um pro outro!
-Vai pra merda, Neno! Pratos e talheres ao chão...


O Verbo Divino

A Congregação do Verbo Divino mudou definitivamente minha vida. Uma rotina educacional rígida com várias horas de estudo, trabalho braçal e esportes. Nossa vida comunitária era intensa, uma grande família de oitenta alunos. Um jornal interno lido quinzenalmente no domingo à noite contava sempre com minhas poesias rimadas e de cadência marcada. Irmão Nélson Pires André, nossa mãe preta e grande estudioso da Língua Portuguesa, foi um dos meus grandes incentivadores na arte da escrita. Aulas de Latim com um gênio-reitor chamado Padre Joaquim Piepcke ampliaram minha paixão pelos idiomas estrangeiros.
Quando voltava à capital em férias, trazia rapadura e favo de mel do Mercado Central para meu monstrinho. Umas duas ou três bourbons da grande mangueira da entrada completavam seu tesouro anual, amassado entre as roupas na minha mala. Tinha prazer em vê-la lambuzar de amarelo e felicidade sua boquinha deformada!
Eu me transformara agora em bom aluno. A vida em comunidade organizou meu mundo interior. Para que mantivéssemos contato com o mundo externo, estudávamos fora das dependências do Seminário. No Colégio Progresso, a pedra filosofal veio de encontro. Conheci Li, irmã caçula de uma Mestra Iluminada e que viera dançar em minha formatura da Oitava Série. Foi um presente inestimável. Um som de flauta foi ouvido na rua aquela noite. Seu eco perpetuou-se por quatro décadas pelas colinas da bucólica Spring Valley, pelos becos frios da vida noturna e sórdida da Cidade de São Paulo, vindo em seguida bater forte e alto de encontro às pedras do Vale de Ein Karem até atingir meu coração entreaberto como o ressoar de um gongo tibetano. Pautas que vêm diretamente desta partitura escrita em silencio pelos deuses do alto e que de nós sorriem em segredo. Jogos divinos...
Para ir ao Progresso, costumava cortar caminho pelo Cemitério São Bento, vindo da Avenida Espanha, só para poder passar embaixo do incêndio de flamboyants da Rua Humaitá. Na entrada deste portão dos fundos, recolheria do chão alguns naipes caídos anos depois e leria mapas entrecruzados nas linhas da minha mão, numa tradução amarga e irônica que eu seria obrigado a beber da realidade visível como uma cicuta em reticências.
1974 foi meu último ano como seminarista. O cansaço de viver levara meu pai afinal. Voltei para a capital depois da grande encruzilhada que norteou por completo meu futuro. Minha independência foi celebrada com Yoga, Ballet Clássico e Macrobiótica. Logo estava colaborando com Li e aprendendo com ela grandes lições. Então seu império de musa instalou-se no meu coração de uma vez por todas. Frisos que abrigaram sede de seus mármores...
Havia um halo intraduzível em torno dela. Raros momentos de convivência eram o suficiente para me introduzir num ecossistema rarefeito onde até meu modo de falar sofria influências que repercutiam biologicamente meses a fio. Inventava motes que duravam curto espaço de tempo para depois abandoná-los como qualquer um dos seus figurinos vencidos do ano anterior. Tanto podia ser extremamente enérgica quanto teatralmente cômica até o último, inesperada e tão legítima quanto um sol. Mágica. Maga Li.


Um kabuki de possibilidades percorria seus passos através do mundo com a complexidade e o brilho de seu ser indecifrável. Não havia como não segui-la, como não buscá-la e incondicionalmente encontrá-la, indivisível fragrância, justificada em puro perfume espargindo encanto onde quer que suas pontas pisassem. Sua passagem criava um rastro luminoso de pedrinhas de brilhantes. Pura magia.
Sua independência, uma inspiração de liberdade, e eu, pássaro vira-lata, criei plumas por minha devoção a ela, que as coloria pacientemente sempre que se desbotavam em minhas ousadias de fênix. Li gastou muita tinta comigo! Em muitos momentos obscuros de cerração e neblina, sua rua ladrilhada foi meu único caminho seguro na esperança de alguma cor e farol para meu amor passar.
Iniciei todo o percurso de uma via sacra em várias escolas numa vida completamente alternativa e maluca de professor. Meu contato com Li estreitou-se ainda mais fortemente. Dei aulas em sua academia num certo período. Ela jamais precisou de mim profissionalmente. Uma fera que se entregara de corpo e alma para a Dança não precisaria de corifeus. Nunca fui bailarino à sua altura. Nem coreógrafo. E no entanto ela dançou prontamente comigo algumas coisas que criei e que foram inesquecíveis para mim. Paz de Deus. Havia uma cumplicidade mútua que se estendia além da concessão que ela sempre me ofereceu como uma igual, uma alma gêmea, sem comparações técnicas ou sociais. Nossa colaboração era uma correspondência biunívoca a favor de algo que estava acima de qualquer ordem ou valores. Estar com ela num teatro era ter um respaldo incomparável, ao ponto de, até o cheiro das coxias, ser algo tão familiar quanto cozinhar um arroz integral com algas marinhas.
Demorei para afiar minha técnica e ser capaz de criar algo convincente. Tinha planos mirabolantes de criar um ballet-cartoon onde ela seria o coringa tentando driblar as cartas do baralho para prendê-las numa caixa. Alguns clichês de desenhos animados seriam usados. Lembro que conversamos sobre esse roteiro por telefone. Uma música de Count Basie seria perfeita para a peça.
Impossível. Um Ás atravessou nossa linha. Terminei a ligação chorando, certo do que estava por vir. Criei uma coreografia para suas alunas: “O Segredo da Flor de Ouro”. E ali mesmo, ainda perto do telefone já desligado, comecei a escrever uma série de quatro canções inspiradas na 3ª Sinfonia de Mahler e dedicadas a Li, tentando de alguma forma criar uma moldura sublime para aplacar minha dor irreparável.
Não comparecemos ao espetáculo de encerramento do ano de 1993. Minha musa partiu num verão de 94 deixando o sol daquele ano um pouco mais frio. Eu também fechei meus olhos para a Dança. Jamais esses olhos voltariam a se abrir.
Voltei ao São Bento num dia de janeiro e não lembrei dos Flamboyants incinerando o lado oposto. Mesa virada! Jogo perdido.


Truco

Maria estranhou minha tristeza. Não poderia compartilhar meu gólgota com sua cruz. O silencio prevaleceu em nossos passeios. Finalmente depois de tantos anos ela concordara em usar uma cadeira de rodas. Morávamos agora no mesmo bairro. Nunca falei de Li para Maria, assim como nunca dancei para ela. Lia minhas poesias para sua aprovação, ciente de que ela não tinha a mínima noção do que eu falava. A cada verso ela retrucava... Hum! Hum, como se aquilo fosse uma piada conhecida e contada até a exaustão para sua impaciência de ouvinte equivocada.
Com o passar dos anos ela desenvolveu uma bronquite crônica. O uso de medicamentos que auxiliavam as vias respiratórias causaram alteração em seu metabolismo e decorrente disso um estado de anemia profunda exigia que tivesse de recorrer ao banco de sangue constantemente. Os braços infantis criavam hematomas assombrosos quando voltava das internações. Nos víamos com frequência. A cadeira de rodas fora desativada e mofava no porão da casa. Não precisaríamos mais dela para cumprir nosso próximo itinerário.
Um aparelho foi colocado próximo à sua jugular para facilitar as transfusões. Uma corrida contra o tempo instalou-se paralelamente. As internações cresceram em progressão geométrica. O inverno de 1999 foi rigoroso. Pneumonia dupla.
São 17:00 hs. Já de banho tomado para sair recebo um telefonema. Tia Encarnação ao telefone me pedindo para correr até a Santa Casa. Ela sofrera um ataque cardíaco. Nos aparelhos foi informada pela mãe que eu estava a caminho. Abriu os olhos e mirou a mãe sem poder dizer nada.
Tomei um táxi. O motorista seguiu um caminho que passava pelo cemitério mais próximo. Senti ali um mau presságio. Conheço esse jogo. Sei quando os deuses começam a me dar pistas.
Não houve tempo. Esperava no saguão para vê-la quando aconteceu. Um botão despregou-se de minha camisa e caiu no chão. Não há meios de costurar o tempo.
Saí dali direto para o meu trabalho. Tarde da noite liguei para Tia Encarnação para saber do funeral. Ela queria ser enterrada em Araraquara, terra que tanto amou. Minha terra também.
Devido a isso sua autópsia seria feita em Taboão da Serra, protocolo seguido por todos os serviços fúnebres que se dirigiam a outras cidades que não São Paulo. Nesta noite não lavei a cozinha com meus peões. Desculpei-me e disse-lhes que iria para casa mais cedo. Tomei um táxi, como era de costume na madrugada. Próximo a nossas casas, na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, um carro cruza meu caminho. Serviço Funerário. Li a placa: Taboão da Serra.
-Amigo, por gentileza, se na Avenida Imirim esse carro dobrar à esquerda, pode segui-lo, por favor?
-Uai, por quê, moço?
-Pode ser que esteja enganado. Mas talvez eu tenha uma grande amiga ali dentro.
-Moço, desse jeito o senhor tá me assustando.
-Não tem nada pra se assustar, Amigo. Se acontecer como lhe disse, faça como pedi, ok?
O carro dobrou à esquerda. Tirei uma nota da carteira e saí do táxi quando o motorista parou em frente a casa de Maria. O pai, seu padrinho de batismo e Pedro esperavam no portão. Segurei a quarta alça de seu pequeno caixão. Uma palavra em sua camiseta P: Friends. Sorriso dos deuses. Algo chegara a um fim. Olhei suas pequenas mãos. Há situações tão vastas que chorar torna-se uma redundância...
Voltei ao túmulo de Li várias vezes ao longo dos anos. Incensos. Flores amarelas, brancas, vermelhas...menos a primavera. Uma lápide cuja construção e sintaxe reconheceria mesmo cego: “A Dança foi sua...”
Certa vez, antes de retornar à Morada do Sol, passei em casa de Tia Encarnação. Perguntei a direção do lugar onde o corpo de Maria fora sepultado.
-É fácil, filho. Sabe o portão do fundo, como quem vem do seminário onde cê estudou?
Chegando à cidade fui direto ao São Bento, tendo o capricho de entrar pelos fundos. Sentei-me diante da lápide: “...de uma Obra sem fim.” Incensos. Flores. Meu coração será sua eterna primavera, Maga Li! Um flash murmurado então em meu pensamento.
Os deuses são tão irônicos que não seria impossível que daqui eu visse o túmulo de Maria.
Reconheci a fotografia de longe. Oito túmulos de diferença. Deixei uma pequena boneca de pano junto à sua foto e parti. Chorei amargamente.
Poderia terminar minha história amarrando aqui as cartas do baralho para dar-lhe um belo desfecho literário. Mas não poderia encerrar minha realidade com uma bela caixa adornada por um laço dourado. Seria cínico e irreverente com a ironia divina. A dor jamais se transforma em ouro. Tiramos dela, quando muito, apenas um processo de fundição. É só o que a vida nos permite derreter ao longo do tempo. Divinamente.



sábado, 5 de outubro de 2013

O Berimbau de Naná Vasconcelos








Os dois cisnes negros viviam naquele lago à beira da estrada em deslizes, próximo à colina de pinheiros e carvalhos onde morava. Era meu trajeto diário; fazia de bike ou caminhando quando era inverno. Saía de casa muito cedo para chegar ao Apollo D'Oro a tempo de tomar meu café tranquilo, sem botões automáticos ligados desde o início. Além disso, era costume de Hervé, o padeiro francês, me pedir para colocar MPB no CD player. Invariavelmente nossas manhãs começavam com João Gilberto. Vez por outra ele vinha me perguntar a tradução de algumas coisas enquanto eu ainda preparava a madeira para o forno da pizza. Mas como traduzir a letra de 'Doralice', por exemplo? “Olha essa embrulhada em que eu vou me meter!” Os croissants quase saindo do forno e nenhuma conclusão a respeito... João Gilberto todas as manhãs como uma oração que se rezava aos poucos...
Comecei a alimentar os cisnes com migalhas de pão.
Jack & Jeannie. Anônimos cisnes batizados por mim naquele recanto de Oregon House. Com o passar do tempo eles cruzavam o lago de uma margem à outra quando me viam apontando no alto da alameda que conduzia à saída da vinícola. Vinha em minhas roupas de cozinha, ainda com o chapéu branco a voar sobre a bicicleta, polichinelo com os bolsos cheios das migalhas que Hervé me dera justo antes de terminar minha jornada de trabalho. Às vezes sentava-me no barranco perto deles. Os cisnes, impassíveis, deixavam que as migalhas afundassem parcialmente como algas brancas que eles recolhiam depois, já cobertas pelo musgo da margem em S mergulhos de pescoços acrobatas. Meus dois príncipes! Nunca pensei que se encantariam numa história dessas, sequer narrada ainda, sem eira nem beira de estradas, Rice's Crossing Road...
A cultura do arroz crescera ali no século passado com a chegada da imigração chinesa à região de San Francisco. Há fotos belíssimas dos Sutter Buttes refletidos em largos espelhos de água ao seu redor, plantações intermináveis de arroz. Considerada a menor cadeia de montanhas do mundo, os Sutter Buttes foram objeto de culto das tribos nativo americanas Wintun e Maidu, estabelecidas nas bases de suas colinas. Fotos aéreas permitem observar sua formação umbilical num raio de 16 km, ônfalo intrigante de um possível vulcão adormecido. Centenas de séculos depois, esse fértil e febril solo vulcânico permitiu o cultivo de vinhedos nas redondezas.



Gunga vinha algumas vezes me encontrar no lago. Para ele eu tinha sempre coxas de frango assadas que sobravam da Rotisserie Chicken. Eram geralmente nosso jantar. Mas não comíamos na estrada, como dois ciganos em pic-nic. Talvez porque soubesse disso, apressando nossa refeição, ele iniciava uma ladainha de latidos para os cisnes, que se afastavam em seguida. Logo Jack & Jeannie aprenderam que não havia lugar para quadrúpedes na cena: assim que o cachorro apontava na estrada eles flutuavam negros e lindos para o outro lado. Também eu mudei minha tática: parava pouco tempo junto a eles para evitar que seus snacks afundassem de vez na água por causa da presença cada vez mais urgente e antecipada de Gunga. Se do alto da colina ele me surpreendesse alimentando os cisnes, mesmo percebendo que eu já voltava para casa, caminhando em sua direção, o danado do cachorro do mato ainda corria até o lago para dar latidos de moral em direção às aves. E claro, ele estragava tudo!
Aves para ele, só assadas! Não! Minto! Houve um frango inteiro uma vez, cozido com ervas por horas para o caldo do meu borsh e que seria descartado depois. Pelo cozimento demorado a peça tornava-se bem menor quando resfriada. Trouxe-a comigo. Eu trabalhara no turno da tarde e nestes dias Gunga costumava me esperar na escada de madeira da minha varanda.
Era noite. Ele espreguiçou um suryanamaskar antes de dar um largo bocejo de lobo mau e caminhar na minha direção abanando seu rabo e pulando enorme do lado em que eu carregava minha bolsa a tiracolo tentando adivinhar seu menu daquela noite. Cheguei à porta. Ganidos sutis de curiosidade. Abri seu presente antes de entrar. Coloquei o pequeno frango cozido diante de seu grande focinho preto. Ele me lançou um olhar tipo: “Really?”. Em duas bocadas ele encaçapou a ave e sumiu para devorá-la em 'cracks' entredentes no breu do terreiro do estacionamento. Sentei-me no escuro para ouvir seus ruídos vorazes. Uma percussão de gourmet sem precedentes. 


No inverno as noites são mais longas. Cinco horas da tarde e o sol já é posto. Trabalho no jantar e estou atrasado. Caminho rápido pela estrada e vejo a cena: Jack & Jeannie perdidos do outro lado da estrada e um impotente Carlos Labatte estacionado sobre sua bicicleta diante do perigo e me alertando para não chegar perto dos cisnes. Meu pavor de que um carro em alta velocidade vindo de Regent Way pudesse colidir com minhas aves sinalizou mais alto que qualquer sobreaviso.
Andei calmamente na direção deles. Carlos gritou: - 'Be careful, they can be wild!'
Pastoreei em português Jack & Jeannie, cortejando aqueles dois imensos balões negros com as asas de Jack roçando vez por outra minhas pernas enquanto eles caminhavam leves de volta à água.
Um atônito Carlos Labatte desaparecia veloz na paisagem escura da estrada, rindo da cena final em epitáfios: - Just here to be able to see something like that! Just heeeeere!
Os cisnes interromperam a quietude fria do lago. Deslizaram breus de água adentro. Missão cumprida!
Fiquei olhando Carlos que sumia ao longe na minha perspectiva e a imagem do aeroporto bateu forte como um selo de LSD nas minhas retinas.

Chegamos os cinco com as três horas de antecedência de praxe para voos internacionais. Feitos check-in e devidas trocas de moeda corrente, restou-nos inventar o que fazer até a hora do embarque. Carlos tivera uma visita adorável a nosso Centro e voltava agora à Califórnia passando antes por Buenos Aires, sua cidade natal, por alguns dias para rever amigos e família. Sua Ulysses Books lançara pérolas raras no mercado editorial americano. Ele viera a São Paulo com o intuito de negociar os direitos dos livros de Girard Haven com a Pensamento. Eu tinha uma editora recém aberta para publicar Rodney Collin mas estava por iniciar meu trabalho no Hospital Sírio Libanês e fazia ainda extras no Mestiço para as kratong-tongs de Dona Ina cuja fórmula de graal eu era um dos três únicos a saber até então. Nem sequer considerei falar a respeito. Sua companhia era para mim o maior deleite e interesse antes de mais nada.
Sentamo-nos nas mesas externas do Coffee Shop. Reconheci de imediato quem estava sentado à nossa frente acompanhado de seu belo berimbau junto à amurada. Um pensamento louco e quase impossível passou num zás!
Levantei-me e fui corajosamente até ele. Agachando-me, pedi-lhe delicadamente: - 'Posso ver seu berimbau?'
Tomou o instrumento em suas mãos possantes e negras e ergueu o berimbau diante de mim soltando o oco grave de uma risada sarcástica como quem fizesse uma piada em barítono perante a timidez e curiosidade de um ingênuo tenor.
- 'Que lindo!' Como se em notas de rodapé lhe dissesse com voz aveludada ao notar recauchutagens feitas a durepoxi na cabaça do seu tesouro. Toquei gentilmente o bojo remendado do instrumento como se acariciasse os seios da Vênus de Milo. Acho que ali conquistei seu coração!
- 'Você mesmo colocou isso aqui? É durepoxi, não é?'
Bingo. Naná começou a me relatar todo o histórico de seu berimbau e que ele mesmo fizera:
- 'Essa corda é de piano. Isso é durepoxi, sim. Eu que fiz esse berimbau. Está comigo há muitos anos, nunca tive nenhum outro.'
Estava diante de um troféu. Era então o mesmo berimbau que acompanhara Egberto Gismonti desde sempre e com o qual Naná começara a gravar seus próprios trabalhos solo.
- 'Puxa, esse meu amigo aqui é da Argentina! Acho que ele nunca ouviu o som de um instrumento assim! Você não pode tocar alguma coisa para ele ouvir e perceber como o som é diferente?'
Naná Vasconcelos foi até a mesa onde meus quatro amigos estavam. Segui-lhe veloz. Imediatamente ele começou a introdução de “Amazonas”, peça que abre seu primeiro disco solo de mesmo nome lançado em 1973. Sentei-me maravilhado. Não podia acreditar.
Meus amigos não o conheciam de todo. Um deles, enquanto Naná tocava, comentou à queima-roupa que ele tocava muito bem...
- 'Claro, é o melhor percussionista do mundo! Respondi num sussurro...'
Em segundos Naná terminou seu prelúdio. Tomou depois algumas garrafas sobre a mesa e deu ainda uma 'canja' soprando vozes de mil ventos de dentro delas. Esplêndido! 
Depois perguntou a Carlos Labatte de onde ele era. E ao ser informado, emendou dizendo verborrágico que já havia tocado com grandes músicos argentinos, como Gato Barbieri, por exemplo. Carlos permaneceu cético. Sorrisos amarelos. Um leve clima... Naná retirou-se.
Fui até sua mesa. Agachei-me novamente diante dele e agradeci profundamente comovido:
- 'Eu sei quem você é. A música que você tocou no berimbau é a abertura de “Amazonas”, não é? Eu tive esse trabalho em vinil há muitos anos.'
Ele surpreendeu-se: - 'Qual é sua profissão? Você é artista?'
- 'Não, Naná, sou apenas um cozinheiro.'
Ele pareceu não acreditar. Olhou-me zombeteiro como se me pegasse mentindo diante de uma lata de biscoitos:
- 'Fala a verdade pra mim... Você é artista, não é?'
- 'Não, Naná, sou cozinheiro, olhe minhas mãos queimadas e cheias de calos de tanto lidar com as facas.'
Estendi minhas mãos para ele, que olhou com a astúcia de um quiromante genial, sorrindo a seguir com a bondade da senzala estampada em seus olhos marotos:
- 'Mas você faz alguma coisa...'
- 'Faço, mas é indeterminante. Neste momento só o que conta é o quanto você me fez feliz por ouvi-lo... Obrigado, Naná...'
Estendemo-nos as mãos. Ambas calejadas. Por músicas, panelas e facas. 
Horas depois já estava diante do meu tacho de óleo fritando as kratongs no Mestiço com esse segredo oscilando em meu coração de um lado a outro, pensando em Naná Vasconcelos decolando de Guarulhos junto com seu berimbau mágico, levando estrelas e batuques aos céus e arredores do planeta Terra, um gênio como Hermeto, Elomar e Miles Davis. Claquete!













sábado, 28 de setembro de 2013

Catarse





A ideia de luz sempre me incendiou. Tenho observado que desde sempre escrevi sobre luz. Para mim, sempre um código entre os Adeptos. Em seu leito de morte, as últimas palavras de Goethe foram: 'Luz! Mais luz!' E ele a tinha como poucos...
O fenômeno da luz, que é insubstancial e existe! Os efeitos inegáveis da luz... Inclusive nas sombras...
Quando voltei de meu primeiro retiro de Mahamudra no deserto de Ein Gedi, após sete dias intensos percebi meus olhos mais sensíveis à luz. Como se tivesse a pupila dilatada. Era mais nítido quando saía à rua ou ambientes com muita claridade.
Observei o fenômeno sem muita fascinação para não azedar a magia. Algo reconhecível e empírico que não deveria ser tratado com receio. Ao mesmo tempo, o acréscimo de uma sensação completamente nova aos sentidos trazia uma surpresa inegavelmente... fluorescente!  Há que se olhar para certos temas do espírito com olhos cautelosos.
Uma das aretés mais prezadas pelos gregos da Antiguidade era Reverência. A Odisséia de Homero está repleta de exemplos da reverência dos heróis aos deuses. E essa reverência fez toda a diferença na Civilização Helênica. O contato dos homens com os deuses e a educação divina recebida dos deuses fez com que homens brilhantes emergissem na História. É quase inacreditável que Homero tenha escrito suas Odisséia e Ilíada num período considerado obscuro dentro da arte grega, o Período Geométrico. O trabalho de cerâmica desse período, por exemplo, adquiriu a rigidez de uma decoração predominantemente geométrica onde o desenho da figura humana convertera-se então num jogo de ângulos e representações bem menos interessantes que as do período anterior, o Minoico.


É lamentável que não se considere o Período Minoico com mais atenção. Ali, rudimentos de uma escrita começaram a desenvolver-se, dando origem à Linear A e Linear B, já em sentido horizontal, contrastando com a anterior, ainda uma escrita hieroglífica e que os minoicos também desenvolveram. Essas escritas lineares foram depois adotadas pelos micênicos, uma cultura nascida dentro do período Minoico, afim de registrarem assim sua forma arcaica de grego.



A cerâmica do período Minoico é belíssima. Pronunciadamente inspirada em motivos marinhos, linhas sinuosas e ondulantes e animais da natureza. Representava por excelência toda a elegância solar e colorida dessa civilização que floresceu principalmente na ilha de Creta.


Há um livro maravilhoso em português sobre as escavações de Arthur Evans, o arqueólogo britânico responsável pelo sítio arqueológico de Cnossos.


Interessante que o idioma em que Homero redigiu seus escritos, se é que ele o fez ou esteve sequer presente ao registro, ainda não era o Grego Antigo, e sim uma forma de linguagem que poderíamos chamar de Jônico. A própria forma em que os Evangelhos foram escritos tem influência do trabalho de Homero, praticamente uma das primeiras referências em literatura até então. O mesmo fenômeno de tradição oral repetiu-se com o épico Gilgamesh, este traduzido no Ocidente apenas em 1860.

Mas Homero não era um escritor. Talvez ele nunca tivesse planejado escrever coisa alguma. Era um Aedo. Uma espécie de Repentista do Nordeste com uma bagagem de histórias na ponta da língua. Raros tempos homeros. A relação do homem com a memória ocupava então o nicho que viria a ser preenchido depois pelas enciclopédias. Saber, dentro dos moldes da Antiguidade, era um conceito bem mais amplo que o nosso de hoje. Não se encontrava as páginas de Sócrates ou Platão no Facebook. A Antiguidade não era informatizada!
Seria curioso saber a posição exata de Urano à época. Planeta inegavelmente conectado à ideia de informática e telecomunicações, segundo a Astrologia, ele permanece uma média de sete anos em cada signo.  Quando Urano resolveu botar as manguinhas de fora e entrou em Aquário, seu domicílio natural, em janeiro de 1996, a era dos computadores instalou-se definitivamente. Urano é justamente essa mente revolucionária, inesperada, impactante. Sua rotação incomum, ao contrário de todos os outros planetas do Sistema Solar, é anti-horária e ilustra bem as qualidades nada ortodoxas desse enigmático corpo celeste. Ao passar para o signo seguinte, Pisces, o bem comum, os celulares tornaram-se então uma utilidade imprescindível. Os beduínos do deserto usam celular tanto quanto os pastores de cabras nas colinas de Ein Karem ou os índios do Parque Xingu no Brasil. Há mais celulares no planeta que seres humanos. Atingimos esse astronômico e absurdo recorde. 
Está cientificamente comprovado que o ser humano é composto da mesma matéria que as estrelas, assim como é fato que o número de celulares hoje é maior que o de seres humanos. Urano em Áries.
Tudo é manifestação de luz. Esse talvez seja o papel que os homens iluminados cumprem na história da humanidade. São grandes faróis apontando para onde tudo deve retornar. O Budismo Mahayana, um mapa desse farol, visa iluminação não somente num nível individual, pelo contrário, todo trabalho feito na direção de evolução em algum sentido, busca o bem comum da humanidade, o compartilhar da luz entre todos! Para mim um modelo expresso de Compaixão, ingrediente vital e legítimo que, junto com Sabedoria, forma as bases da filosofia Mahayana.
Se olharmos os tópicos discorridos neste texto, poderemos afirmar que todos, sem qualquer exceção, e dando-lhes suas devidas relatividades, tratam o tempo todo de manifestações de luz.: Matéria primordial da qual todos somos feitos e para a qual todos, inevitavelmente, retornaremos um dia, quer sejamos pessoas, planetas ou vaga-lumes. 


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Botticellis de Daniela

18.08.13
Hoje acordei pensando tanto em você, Dani. Queria saber das meninas... Todas elas. Inclusive de você, menina ainda com seu puro coração de criança. Manda um alô para mim, tá?
Fique com todo meu Amor. Seu no Dharma. C.

22.08.13
Oi Celso!
Como estão as coisas por aí?
Escrevi pra vc esses dias, mas foi no e-mail do ig.
Pois é, acordou pensando em nós dia 18 porque vc tem algo especial. Foi o dia que as meninas escolheram para nascer!
Elas nasceram dia 18/08 as 20:37h (Mila) e 20:38h (Gabi). Passei o final de semana indisposta e fui, por precaução, ver se estava tudo bem. Eu já estava em trabalho de parto avançado. Mas fizemos cesária, pois a Gabi estava sentada!
A Emilia nasceu com 2.26kg e a Gabriela com 2.03kg. Iriam completar 35semanas de gestação no dia 19. A Gabri ficou na UTI semi-intensiva por causa do peso, mas todas nós saímos juntas do hospital ontem (21/08)! Uma alegria tremenda!
A Catarina está encantada com as irmãs!
Manda notícias suas!

22.08.13
Fico muito feliz com o fato de as meninas terem nascido e de você ter, de certa forma, nascido mais uma vez.
Quatro meninas lindas. Quatro grandes corações.
Obrigado por sua pronta resposta. Tenho alguns trabalhos particulares e semanais que começam a surgir, Dani!
Quatro clientes. Amanhã fecho mais um. Terça começa minha escola de hebraico.
Tenho um blog com minhas poesias:
Há uma postagem nova de dois dias atrás: Hinos ao Sol.
Meu momento é de saudades intensas e adaptação. O coração pulsa novos ritmos.
Meu silencio não dispensa ainda alguns ruídos.
Minhas perguntas não têm peso.
Minhas respostas são um grande abraço em direção a Deus.
Ele me beija todas as manhãs da eternidade.
Sinto seu perfume saído de um banho de lavanda.
Todo meu Amor. Seu no Dharma. C.
Beijos

30.08.13
Oi Celso!
Desculpe-me pela demora, tenho tido dias alegres,mas conturbados! Entende, né! É a adaptação ao novo ritmo, às noites sem sono, alegrias e preocupações se misturam...
às vezes as lágrimas extravasam sem querer, não sei se medo, felicidade, receio... deixo-as fluir, assim que curamos... O segredo é deixá-las ir do mesmo modo que surgiram, de repente, sem motivo, sem avisar! Foi assim com a Catarina, está sendo assim de novo!
Tenho grandes receios quanto ao poder psicológico, físico e financeiro, espero que eu consiga cumprir essa minha missão de mãe!
Esses dias tenho ficado muito distante da Catarina, ela tem dormido até na casa da avó, até nos adaptarmos melhor, o cansaço é intenso! Não estou conseguindo amamentar e isso me deixa triste! Tento ao máximo, mas elas preferem a mamadeira! Dou amor em outras formas!

Que bom receber notícias suas, me faz tão bem!
Fez-me tão bem vê-lo, ver que está bem, com o brilho nos olhos, sorriso...
Você é uma pessoa de luz, acredito que encontrará todas as suas respostas, seu silêncio, sua paz que emana e contagia!

Começarei a ver seu blog, tenho acessado pouco, mas olharei sempre que puder!

Seja muito feliz, isso me contagia!
Tenha todo o seu sucesso, no trabalho, na nova vida e principalmente no espírito!

às vezes saio do caminho da paz, revolto-me, mas existem pessoas que me ajudam a retornar, e lembre-se, você é uma delas!!!!

Manda sempre notícias!!!!

Beijo no coração!
Muita luz!!!

Dani


31.08.13
Crescer dói às vezes. Os antigos acreditavam que as crianças tinham tanta febre por causa do processo de crescimento.
Verdade ou não, gosto de pensar nisto como um símbolo. Assim como o sal, presente tanto nas lágrimas quanto no suor.
É assim mesmo. O tempo é um fator. E ele não deve ser desperdiçado com sofrimento, ainda que já haja o sofrer, não é inteligente
demandar mais dor a uma determinada situação. A gente reage porque é assim que somos. Não aprendemos a ser sábios. A vida te 
ensina no máximo a se virar. Mas ela por si só não te ensina a crer, a inventar, a ser inteligente, a ser amável. A vida em si mesma não te justifica. 
Os comportamentos morais nem sempre se conectam com a vida interior. A vida em si tem propósitos muito precisos, que nem sempre
são os propósitos da alma ou algo que se aproxime dessa ideia. Há que se viver a partir da alma, através dela. É o que conta, todo o restante é sono, massificação, valores tortos e imitados. Por isso não ressinta nada que ocorre nesse momento. Considere que o que lhe sucede é seu destino, foi desenhado para você e você não deve nada a ninguém.
É difícil ser você mesmo. O mundo te nega. E o mundo é maior que a gente. Aparentemente ele tem mais poder. Mas é só aparentemente. Fortuitamente Dani Querida, o nosso buraco é bem mais embaixo. E isso não se ensina. Ou você tem ou não tem. É igual samba no pé.
Há bens preciosos que são nossa herança e direito, e não há modo de imitar uma bênção. Conte e lembre-se da sua graça, da sua luz,
porque só ela e mais nada podem conduzir você a um lugar seguro, ao divino.
Dan, a palavra inteligente vem do grego. Vai vendo! Em grego a palavra é éxipnos. Em demótico, tudo o que está fora é éx. E isso herdamos em português, língua formada da influência greco-latina. Hipnos, é sono, como você bem sabe. Há no anexo a grafia em grego para você apreciar. Note como o grego é uma linguagem sagrada, altamente espiritual. 
                                                                           έξυπνος 
Daí se deduz, que ser inteligente é estar fora dessa lei massificante, ser capaz de sair deste estado de letargia para onde tudo mecanicamente caminha. Entendo todo seu momento. Entendo que não poder amamentar é algo que traz um nível de sofrimento. Mas não deixe isso se transformar no seu deus. 
Sua gravidez foi um projeto dos deuses. Você já se deu conta disso?
Você vai crescer com essa maternidade. E crescer dói. Mas gera vida no sentido mais elevado que um ser humano possa conceber. Criar filhos, junto com a morte, é uma das raras oportunidades de experimentar o milagre do divino. Mas experimentar o divino tem sempre um preço. Mas lembre que os deuses trazem a fome com um pão embaixo do braço.
Todo meu Amor. Seu no Dharma. C.

PS: Não é determinante para mim que você consulte o blog. Não se ocupe disso.  A poesia maior agora chama-se Emilia e Gabriela. Essa, a grande dádiva!

02.09.13
Bom dia, querido!
Como é bom te ler... como sou feliz por ter pessoas especiais como você na minha vida!
A sua compreensão de tudo que vem me acontecendo, não preciso mais falar nada além!
Sabe, essa dor não é medo da responsabilidade, é medo de não ser capaz!
A melhor sensação do mundo é se sentir responsável pela geração de uma pessoa. Ter filhos é eternizar-se, eternizar o amor, Deus, os valores e tudo de bom. Mas com isso vem o ônus, os erros que sempre cometeremos amedronta. Será que conseguirei guiar essas meninas a serem inteligentes, a viverem a alegria plena, a saberem que o que vale é o que somos no nosso interior?
Por mais que eu saiba, não consigo ser eu mesma 100%. Esse mundo corrompe nossos desejos, tenho de deixá-las para ganhar dinheiro, esse dinheiro que rege a vida terrena! Não posso me dedicar somente a elas, fazer a comida, ensiná-las o artesanato que ajuda a alma a transcender, que é terapia para a mente doente, que é amor que flui pelas mãos! Ensiná-las o amor por preparar o alimento, o zelo...
Isso que dói... esse bullying que sofremos diariamente, é por amamentar, por não amamentar, por cuidar, por dar amor, por não delegar... não delego minhas riquezas, elas são de minha responsabilidade... e... de repente, me vejo tendo de adiantar meu retorno ao trabalho devido ao dinheiro que rege esse mundo material!
Isso é o que dói mais... superarei... sei que Deus, anjos de luz no céu e aqui estão para me ajudar, para me guiar e permitir que eu enxergue a minha luz!
Meu milagre de vida maior já aconteceu, essas três jóias, que tudo dizia que não as teria. Milagre da vida! E quero permitir que elas cresçam com amor e liberdade de vivenciar o que a alma lhes mostra... 
Viver o milagre da maternidade sabendo expurgar a culpa inerente a ela...
Conseguir driblar os fracos de espírito, que se deixam influenciar pelas energias negativas, isso é obstáculo grande a ser vencido!
Suas palavras me ajudam muito!
Nunca imaginei que sentiria tanta saudades do seu abraço, mas como um verdadeiro amigo e professor da fé, você tem me ajudado mais do que presente, não poderíamos conversar assim de perto, o tempo corrido imperava!
Desculpe-me pelos pensamentos soltos, como te disse, preciso deixar as lágrimas fluírem para, como você mesmo disse, molhar a terra e permitir-me crescer. 
Não consegui abrir a grafia. 
Tenha muita luz na sua jornada!
Beijo grande!
Dani
9.09.13
Bom dia!
Fico feliz em te escrever sem aquela tristeza e aqueles medos, como sabia, tudo está se encaixando!
Ontem fizemos um passeio pelo nosso bairro, e essa é nossa primeira foto juntas! Pena que o sol estava de frente e não estamos todas olhando para a câmera.
Fique com nossa luz!
Beijos


17.09.13 Querida Daniela, atualmente Israel tem seis horas a mais que Brasil. São dias intensos estes. Há uma série de grandes feriados por conta ainda do Ano Novo Judaico. Não tenho aula na Escola de Hebraico, a Ulpan até dia 28 deste. Bom porque é o primeiro momento em que realmente parei para relaxar um pouco desde que cheguei. 
Vivo um momento de muita produção desse ofício de escrever. Ideias que surgem e vão tomando forma com o passar dos dias até se transformarem em produtos finais. É um processo. Acho que o fato de estar vivendo num lugar tão bucólico tem favorecido um contato maior com minha vida interna. Jamais considerei muito as condições que meu destino foi oferecendo porque jamais me permiti escolhas ou preferências. Mas tenho apreciado como um espectador uma peça se desenrolando ao meu redor. E como sempre há um show de luzes que eu mesmo nunca consegui criar ou pretender acendê-las.
Pra você dimensionar melhor como isso se dá, há poucos dias recebi um e-mail de um amigo virtual que postou uma tradução de um trabalho meu que me tomou sete anos de lida. A postagem foi feita a partir de outro blog e um capítulo todo e mais duas partes de um outro se perderam. E justo neste momento ele me solicita esse 'gap', perguntando se eu tinha esse material disponível. Parece mesmo que os deuses estão com algum firme propósito. Meu papel é ser uma ponte, nada mais. 
Recuperei duas histórias infantis que traduzi para inglês para que a Lily pudesse ler. "O Quintal" e "O Cavalinho Azul do Luna Park". Vou postá-las nas "Cartas de Ein Karem", traduzidas novamente para português (Ufa!), já que faziam parte de correspondências nossas de quando ainda morávamos em países diferentes. 
...
Parei um pouco agora para varrer minha cozinha e me dei conta do tempo. Quanto parece tão recente o nascimento da Catarina e agora, veja! Mais duas meninas, Emilia e Gabriela reacendendo o pavio da eternidade. Mas o tempo não volta, enlaça, como cita minha Mestra. Tudo é parte de um único propósito. A gente realmente não tem cacife para planejar nada. Penso que tudo o que podemos nos dar como meta é procurar ser bom, trazer bondade em nossas ações, sentimentos e palavras.
Gosto muito de pensar no que Jesus disse num certo momento:  "Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua justiça, e tudo mais vos será dado por acréscimo." Mt 6-33 
Isso para mim sempre foi um refúgio, alento e fonte de fortalecimento. O Trabalho de Cristo é tão inesgotável que nós podemos ver o quanto ainda somos parte de todo aquele drama ocorrido há mais de dois mil anos e do qual Ele foi o personagem principal. Eu tenho Cristo permeado por todo meu ser. Tive uma formação cristã forte que depois abandonei para voltar por conta própria. Mas Cristo hoje para minha vida supera toda e qualquer limitação da mídia que a religião tenha feito sobre o Seu Trabalho. Minha ligação com a Sua pessoa não passa pelo filtro de qualquer organização ou dogma. É na veia, Daniela! Como pode um Trabalho de ação público de apenas três anos ter chacoalhado todo um planeta desta forma?
Minha casa é pegada ao Mosteiro de São João Batista, que tradicionalmente é tido como o lugar de nascimento de João. É neste vale que morava Isabel, sua mãe e que foi num certo momento visitada por Maria, a mãe do Cristo. Do outro lado do vale fica a Igreja da Visitação. Às vezes fico pensando romanticamente se depois de adulto, quando Ele já podia montar um burrico por conta própria, também Ele não tenha vindo aqui fazer uma visita à sua família. Muito da sua história pessoal se perdeu, pequenos detalhes se foram. Restou apenas o assombro. De qualquer forma, trato sempre de me comportar muito bem, mesmo em meus pensamentos mais íntimos, porque este lugar é definitivamente sagrado. Não quero ser profano nem geograficamente. Pessoas divinas andaram por aqui.
Tenho mantido contato com irmãs que amo de paixão. Uma delas foi minha professora de Português. Juntamente com o Irmão Sávio, foi uma das pessoas que mais me incentivaram a escrever. Por conta disso comecei a ler alguns autores ainda na adolescência, Pessoa, por exemplo, para mim a grande influência do meu discurso poético. E Krishnamurti, Dostoiévsky, Guimarães Rosa, William Blake, Goethe... Isso causou forte impacto na minha formação literária. A mais nova delas, uma das minhas musas, inspiração para toda uma vida. Assim são construídos nossos dias ao longo de uma existência, grandes bênçãos contornadas por grandes lacunas que vão sendo preenchidas por mais bênçãos, por maiores graças que vêm por conta de um pagamento que se faz sem saber.
Dani, é bom demais poder me corresponder com você. Irônico que a distância tenha terminado por nos aproximar!
Fique com todo meu Amor. Um beijo na Catarina, Emília e Gabriela. Abraços no Fernando. Seu no Dharma. Sempre. C.